Maciel Souza
Há em educação
fórmulas e formas exatas que também delimitam e retiram desde cedo suspiros de
liberdade de quem vem à escola e deveria encontrar nela uma formação cidadã. O
processo acontece numa contabilidade precisa de dias, horas, horários, passando
pela organização engenhosa de nossas carteiras e chegando ao professor em seu
posto de figura central como se detivesse o conhecimento em sua plenitude.
Somente agora depois de dezesseis anos de LDB (Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional) buscamos cumprir o horário integral do aluno na escola, que
acontece num faz de conta, já que não temos estrutura para fazê-lo
decentemente, pois investir em educação não é o nosso forte e como se não
bastasse, tenta-se resolver problemas cruciais mexendo no currículo, a exemplo
da Comissão do Senado que aprovou recentemente a inclusão da disciplina
cidadania moral e ética no ensino fundamental, como se essa discussão não fosse
já contemplada na disciplina de ensino religioso, pelas demais disciplinas
através dos temas transversais, ou talvez porque se confirme a tese de que a
escola não é essencialmente um espaço democrático e essa disciplina venha numa
tentativa heroica para fazer esse resgate.
Em educação prevalece
o intencional e o espaço que a escola determina na vida é muito bem simbolizado
pelo espaço das quatro paredes num convite desde cedo à limitação ou à
passividade. E essa “opressão educacional” nos leva a outros tipos de opressão,
seja ela política, religiosa... econômica (O cartão de crédito, por exemplo, me
credencia como cidadão, mas uma boa educação me fará enxergar que ele não me
concede autonomia financeira.).
Neste contexto não se
pensa e não se prepara para o contraditório, nem para saber ser contraditório.
Se a nossa leitura é deficitária, se não concatenamos um ponto de vista e se
argumentamos de maneira confusa, isso reflete em nossas relações, em nossa
vida. Na contramão do mundo não se instiga a leitura, a pesquisa, o
conhecimento, não se domina os diversos gêneros do discurso e não se faz uso da
oralidade de maneira adequada. Não me admiro quando ouço que aluno bom é aluno
que mal fala: ele é bonzinho! Mas num mundo sem fronteiras o que realmente
incomoda nem chega a ser a ausência e sim o silêncio, embora muitos dos que
falam são ignorados ou convidados a calar-se, já que o aparelho fonador existe
a partir do aparelho respiratório e por isso quem fala também machuca, já que
respira.
Em contrapartida há o
discurso de que o professor pode fazer a diferença, mas a nossa própria
formação é deficitária e muitos nem nos vemos como profissionais e sim como
agentes sociais exercendo um ofício ou sacerdócio, daí a lembrança de que temos
que desenvolver sentimentos amorosos, de respeito com nossos alunos, acho que
como certa compensação pelo fracasso de um modelo para um aluno no século XXI,
de um professor com formação pedagógica do século XX e uma educação que segue o
formato do século XVIII, mas só a educação parou no tempo, que se diga. Esta
discussão é interessante no processo de formação pedagógica do professor, não
como projeto a ser desenvolvido em sala de aula, tanto quanto me parece
inconcebível a um pediatra ou psicólogo, por exemplo, com placas em seus
ambulatórios e os dizeres de que ali crianças são tratadas com dignidade,
afinal, onde não for, que se denuncie.
E assim, neste
sistema condensado em paredes, de dias, horários, disciplinas e minutos
específicos, encontramos aqueles que delimitam também números de linhas,
determinando , subestimando e encurralando ainda mais seus alunos, em pleno e
admirável mundo novo. Lembro a professora que pedia para os alunos desenharem
uma rosa e tinha sempre que ser vermelha. Uma de suas alunas foi transferida
para outra escola e quando provocada a desenhar... adivinhe o que ela desenhou.

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