O
professor Maciel, prestes a se formar em direito pela Universidade Potiguar,
recebeu a equipe do Japi em Foco para uma conversa descontraída, onde nos conta
sobre suas impressões de mundo e sobre seus planos para o futuro.
Professor por vocação,
Maciel Marílio, como gosta de ser chamado, esteve durante um curtíssimo final
de semana com sua família. Cercado de livros, já que está em fase final de seu
trabalho de conclusão do curso de direito, respondeu a uma série de perguntas
feitas pelo Japi em Foco. Orador
seguro nas palavras, está desenvolvendo trabalho sobre os males da corrupção no
país. Com uma pausa para um café, nos concedeu a seguinte entrevista.
Você
se diz vocacionado para o ensino. Quando foi que isso começou?
É difícil precisar bem
quando isso começou. Desde menino sempre tive muitos livros ao meu redor. Com
cinco ou seis anos, eu já sabia ler. Minha avó sempre teve muitos livros. Mais
tarde, eu lia de tudo, desde rótulos de embalagens até a bíblia. Tive a sorte
também de contar no início com bons educadores. Três professoras que tive,
nunca irei esquecer delas. Primeiro foi a Neném, ainda no Casulo. Aquele
ambiente acolhedor ajudou-me muito. Depois vieram a Rita, que hoje é secretária
de educação no município e a Biana. Aprendi muito com elas. Até hoje, minha
relação com a Rita é de professora-aluno. Ela sabe disso.
E
quando foi que assumiu pela primeira vez uma sala de aula?
Ainda recordo-me muito bem.
Corria o ano de 2000. Naquele ano, lembro-me que foi um ano político, onde
alguns professores se afastaram para concorrer como candidatos. Naquela época,
fazíamos ainda magistério. Como era o último ano, estávamos em estágio para
aquisição do diploma. Entrei na vaga de um professor como estagiário. Fiquei
por três meses. Eu dava aula para alunos de ensino fundamental e para alunos do
ensino médio. O curioso era que eu dava aulas na própria turma que eu estudava
como aluno.
E
como foi ter que dar aulas para seus próprios colegas?
(risos) Complicado, hein?
Era interessante. Nos meses anteriores e mesmo quando não eram as minhas aulas
na sala, eu estava ainda sendo colegas de todos. Sempre fui um aluno muito
popular na sala, de forma que sempre atraía atenção. Mas era diferente agora.
Eu seria o professor. Lembro-me dos meus colegas mais próximos no primeiro dia
que assumi. Diziam que agora todos estavam aprovados. Faziam certas graças.
Havia momentos que eu não me segurava e caía na risada. Havia ainda um grupo de
mais idade que me olhava de forma desconfiada como se dissesse: “esse aí, não
dará conta do recado”. Graças a Deus deu tudo certo. Hoje, sinto saudades.
Hoje
você ainda é professor e está terminando a faculdade de direito. Irá abandonar
a sala de aula e seguir esse outro ramo?
Estou entrando no direito,
mas não quer dizer que eu venha a abandonar a sala de aula. Já estou fazendo
pós-graduação latu sensu em Direito
Constitucional. É o ramo do direito que gosto e lido bem. Também já estou
inscrito para o mestrado da FGV no próximo ano no Rio de Janeiro. De forma que
pretendo ficar sim na sala de aula.
Você
falava antes que também pretende advogar por um tempo. É preciso acreditar na
inocência de um réu para defendê-lo?
Você está bem ensaiado,
hein? Suas perguntas... Mas respondo: Não. É preciso acreditar que as pessoas
têm o direito de ser defendidas. Esse é um dos pilares do estado democrático de
direito. Isso é parte do sistema de justiça. Eu acredito nesse sistema. Mas o
sistema só funciona quando os dois lados estão equiparados. Minha tarefa como advogado
é equilibrar a balança. Fazer com que a defesa tenha a mesma estatura que a
acusação e, desse modo, ajudar a garantir que o sistema processual funcione e
faça justiça. Sem o processo, não existe justiça.
E
o exame da OAB deve continuar difícil como é hoje?
Você ler muito, né? Tem cara
que foi meu aluno. É necessário que seja assim. No mundo ideal o exame seria
dispensável. As pessoas entrariam na faculdade, se formariam e sairiam aptas a
advocacia. Mas na vida real isso não acontece. Gosto da ideia de medir e
divulgar quantos alunos percentualmente de cada faculdade foram aprovados no
exame. Se uma determinada faculdade teve uma quantidade enorme de aprovados e
outra aprovou poucos, parece-me óbvio que que esse ranking vai influenciar na
decisão do aluno sobre onde ele irá se formar ou não. Nesse cenário, o próprio
mercado tenderia a corrigir as distorções, pois as faculdades certamente
tenderiam a melhorar seu ensino para aprovar mais alunos, subir no ranking e
atrair estudantes.
Seu
trabalho de conclusão do curso de direito entra no assunto da corrupção. Por
que o Brasil é um dos campeões mundiais de corrupção?
Primeiro, porque nosso
estado é grande e centralizador de verbas e não atua com metas claras pelas
quais precise prestar contas à sociedade. Sobra dinheiro e falta vigilância.
Além disso, estamos falando de um mal de raízes muito antigas, entranhado no
caldo cultural brasileiro desde os primórdios da colonização portuguesa. Foi
ali que fincaram as bases da ideia antimoderna de estado que persiste até hoje.
E aí, o efeito se dá em cascata. Começa em Brasília e termina aqui em Japi.
Quais
seriam essas bases?
Temos um modelo de estado
generoso, condescendente e que faz vista grossa aos pecados de seus altos
funcionários em detrimento do mérito e da eficiência. Ou seja: é um pai, mas
apenas para quem participa de dentro da máquina e para os que orbitam em seu
redor. É aí que impera a lógica dos
privilégios e dos favores, como se fosse a extensão da própria casa daqueles
que estão sob suas asas. São velhas práticas que já se observam à chegada de
dom João VI. Quando desembarcou no Rio de Janeiro, um dos seus primeiros atos
foi confiscar um lote de casas para dar de presente à corte. Mais tarde, o
então imperador dom Pedro I sairia distribuindo títulos de nobreza aos parentes
da marquesa de Santos, então sua amante. A proclamação da República não
representou uma verdadeira ruptura dessa lógica. Mudou o regime, mas não a
maneira de governar, tampouco a mentalidade reinante.
Na
sua página no facebook, é comum ver postagens contra o PT. Outro dia você
falava que é um partido muito indefinido. Quais são essas indefinições?
Você está olhando demais
minha página, não? (risos). Há uma grande indefinição no PT quanto ao que o
Brasil deve ser. Ouve-se de tudo: socialista, protossocialista, pós-socialista,
capitalista. Falta também ao partido definir de uma vez por todas o que pensa
sobre direitos humanos. Apoiar ditaduras mundo afora é uma contradição não só
com sua trajetória, mas também com seu discurso atual – o mesmo que levou o
partido ao poder. Em meio a dúvidas tão fundamentais, emerge um paradoxo. Mesmo
que o país já se baseie em um sistema econômico moderno e competitivo, que o PT
acolhe e em, certa medida impulsiona, persiste até hoje uma forte resistência
de petistas a valores universais como liberdade, competição e meritocracia. É
peça inaceitável para um país que se pretende peça relevante de um mundo
globalizado.
Há
uma parte aqui do seu trabalho, em que você analisa o comportamento dos
brasileiros no trânsito. O que concluiu?
Tomei como base duas cidades
brasileiras. Natal e Salvador. As demais, foi na base da pesquisa em livros,
internet, jornais e revistas. O trânsito mostra de forma inequívoca como o
brasileiro tem horror a situações em que é colocado em igualdade de condições
com os outros. Porque, ainda que uns dirijam seus carrões e outros, carrinhos
populares, ou que uns tenham dinheiro para molhar a mão do guarda e outros não,
o sinal vermelho será para todos. Ultrapassá-lo significa pôr a vida em risco.
As 40 000 mortes no trânsito registradas no Brasil por ano são, em grande
parte, o resultado da absurda e homicida tentativa de sobrepor-se à regra. O
sistema de favores e privilégios, tão eficiente em outras esferas, não garante
a invulnerabilidade dos que desrespeitam as regras de trânsito.
Como
você toma notícias do que ocorre aqui na cidade?
É um pouco difícil, mas
através da internet sempre dou uma checada para ver o que está acontecendo.
Gosto de olhar no blog de vocês. Sempre em primeira mão a notícia está lá.
Hoje, uso pouco o telefone para tomar informações. Uso internet quase pra tudo.
Difícil não estar antenado nos acontecimentos.
E
tomou conhecimento da onda de violência que atingiu a cidade?
Infelizmente sim. É uma pena
para uma cidade tão pequena como esta. Minha própria casa foi arrombada. Tomei
conhecimentos de outros casos. Fico triste por se tratar de jovens. Fico triste
pelos familiares também. Conheço quase todo mundo aqui. Há uma problemática
toda por trás dessa violência. Família e estado são responsáveis. Encontrei-me
com o meu amigo e ilustre professor Maciel em Natal rapidinho ele falava-me
sobre o assunto. Quase sempre a raiz dá-se por omissão do poder público em
prover a educação, lazer e atividades voltadas para o convívio social. É um
monstro que estamos criando. Jogamos o monstro para a margem e o rotulamos de
marginal. E só. É uma pena mesmo para a nossa cidade.
Você
tem alguma pretensão política?
Estava demorando, hein? Eu
não sou político. Essa é uma condição atual. Não quer dizer que eu nunca venha
a entrar para a política. É lugar comum dizer que se entra na política para
ajudar os outros. Esse é o desejo de cada um. Penso em ajudar o meu município.
Não sei como, mas penso. Pode ser através da política? Não sei. O fato é que
hoje não sou político.
E
se vier a ser?
Você está muito curioso.
Como disse, penso de alguma forma ajudar o meu município. Devo muita coisa a
essa gente. Mas eu não entraria para ocupar cargo legislativo. Aqui é algo que
não funciona. Se eu tivesse que entrar, só entraria para concorrer ao cargo do
executivo.