Num Rio de disparidades
superlativas, cabe um Brasil inteiro. Se o Norte e Noroeste fluminense têm
municípios com indicadores sociais que se aproximam do Norte e Nordeste do
país, o estado também tem seu Sul maravilha, na região do Médio Paraíba, além
de uma área metropolitana adensada e cheia de desafios, que se assemelha ao
Sudeste brasileiro.
Como
O GLOBO na reportagem deste domingo, o estado tem 3,77% de sua população
(565.135 pessoas) vivendo na pobreza extrema, de acordo com o Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Já o Ministério do Desenvolvimento
Social, que dispõe de dados sobre os 92 municípios fluminenses, utiliza
critérios diferentes dos do Ipea e contabiliza 1,74% de miseráveis, ou 283 mil
pessoas.
Perto do petróleo, que na
última década alavancou a economia do estado, mas longe da prosperidade vivida
por cidades como Macaé e Campos — hoje afetadas pela crise no setor —, São
Francisco de Itabapoana tem 41.354 habitantes (Censo 2010), sendo 6.452
extremamente pobres, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social. E não é
difícil entender por que tantos vivem na penúria. De acordo com números do
Ministério do Trabalho, no início deste ano, havia apenas 1.878 empregos
formais na cidade. O que resta é a informalidade, na qual imperam salários de,
no máximo, R$ 200, como o da empregada Jocilene Melo, que não tem carteira
assinada nem sonha com os direitos assegurados pela PEC das Domésticas.
Na localidade do Valão Seco, o
machadeiro Almir Alves Pereira segue a mesma profissão que garantia o sustento
do avô, no século passado. Cata madeira seca no mato e a entrega na casa de
quem usa fogão a lenha para economizar gás. O trabalho rende R$ 50 por mês:
— Pego água para beber na
torneira do banheiro de uma venda. Não tenho energia elétrica, nem vela em
casa. Acordo com o sol e durmo quando anoitece.
INFOGRÁFICO: A
GEOGRAFIA DA POBREZA NO ESTADO DO RIO
Descalço ou com o único par de
chinelos surrados, ele segue para o trabalho diário numa bicicleta montada com
o que achou na rua, puxando uma carrocinha também feita do que encontrou no
lixo. A estrada corta a região mais pobre de São Francisco, que pode até
enganar com terras cultivadas de abacaxi, cana e aipim. Mas, com muitas
propriedades arrendadas por produtores capixabas, que trazem trabalhadores do
Espírito Santo, a roça ali costuma produzir muito suor, mas pouca esperança.
A história de Valdir Barreto
de Lima, de 45 anos, é um retrato do que ocorre no município, onde mais de 40%
dos moradores recebem Bolsa Família. Para ele, não há emprego formal. Uma
rotina tão pesada que, não à toa, usa a expressão “bater-se” como sinônimo de
trabalho.
— É trabalho duro, que nem
burro aguenta. Até febre dá. O dedo fica duro de tanto bater facão. Mas temos
que suportar. Aqui não existe serviço. Quando aparece, é empreitada de cana.
Tenho que me “bater” o dia inteiro para conseguir R$ 150 a R$ 200 por mês. O
jeito é comprar fiado. Devo R$ 800 no sacolão, R$ 600 numa venda, R$ 500 em
outra... E é só de comida — diz Valdir.
Numa tentativa de ascensão
social, ele chegou a deixar a roça para trabalhar como gari em Cabo Frio, na
Região dos Lagos. Mas foi parar no hospital, com dores no coração. Recebeu a
recomendação de repouso, que não cumpriu:
— Sabe quantos filhos eu
tenho? Sete, eu disse ao doutor. Vão sobreviver de quê?
Já no Noroeste Fluminense,
região com menor PIB do estado, a estrutura de trabalho ainda lembra a do
século XIX, quando imigrantes ou ex-escravos ficavam presos a propriedades
rurais devido às dívidas contraídas com os donos das terras. Hoje, em São José
do Ubá, alguns trabalhadores das lavouras de tomate nem veem a cor do dinheiro,
porque são os patrões que pagam as dívidas que eles acumulam em mercados e
vendas.
Mais grave ainda é quando há miséria de um lado e corrupção do outro. Em São Sebastião do Alto, na Região Serrana, que aparece na lista dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do estado, em março o então prefeito Mauro Henrique Chagas (PT) foi preso em flagrante pela Polícia Federal, sob acusação de receber propina de empresa que faria obras nas áreas de saúde e saneamento. Enquanto isso, na zona rural do município, um dos mestres da folia de reis da região, Matozinho José da Silva, de 59 anos, sobrevive com R$ 79 do Bolsa Família, numa casa de estuque que, para pagá-la, deu em troca a sanfona, o pandeiro e o violão:
— A vida aqui não vai para
frente nem para trás. E tem hora que descontrola tudo.
De descontrole, o casal Josimar
Resende e Nazarini Moura, de Sumidouro, entende. Empregado até seis meses
atrás, ele conseguiu construir uma casa com quarto, banheiro e cozinha. Mas,
desde que perdeu o emprego, vive com os R$ 128 que a mulher ganha revendendo
biscoitos. Semana passada, o almoço do casal era arroz. E uma salsicha.
— Só tem essa, vamos ter que
dividir — resignou-se Nazarini.
O CONTRAPONTO
Privações como as vividas em cidades como São Francisco de Itabapoana são raridade em Resende, no Médio Paraíba. Estrategicamente localizada entre Rio e São Paulo, a cidade viu sua economia deslanchar depois de receber montadoras de automóveis na década de 1990. Foram oferecidos cursos profissionalizantes para qualificar a mão de obra da região. O resultado é uma cidade com pouca miséria à vista, e tranquilidade para os moradores de renda mais alta.
— Aqui, as pessoas mais
pobres, que iriam para a construção civil, vão para as montadoras, se
qualificaram. A cidade mudou muito de perfil, mas ainda tem clima de interior.
De vez em quando, alguém fala que teve um assalto, mas eu durmo com a porta
destrancada — diz Kátia Periquito, que mora num dos condomínios mais luxuosos
da região.
Claro, no município também há
pobreza. Assim como a miséria pode ser encontrada em menor grau, mas também
existe em Nova Friburgo, na Região Serrana, e Comendador Levy Gasparian, no
Centro-Sul Fluminense, cidades donas dos menores percentuais de pobreza extrema
no estado, segundo os dados do Ministério do Desenvolvimento Social, com base
no Censo de 2010 do IBGE. Nos dois municípios, eram apenas de 1,3% de
miseráveis. Já em Porto Real, vizinha de Resende, no Médio Paraíba, esse
percentual era de 1,4%. E, em Quatis, na mesma região, de 1,5%.
ONDE O BOLSA FAMÍLIA PESA MAIS
Aos 50 anos, Zilma de Souza
trabalha a semana inteira. Não folga nem em dia santo e feriado. Ela é
cozinheira num restaurante em São José de Ubá, no Noroeste Fluminense. Mas, sem
carteira assinada, o que ganha por mês não passa dos R$200, muito distante do
salário mínimo de R$788. Ela complementa a renda com R$ 70 do Bolsa Família. E
só, na cidade com maior percentual da população recebendo o programa do governo
federal. Segundo dados de janeiro de 2015, são 42,51% dos moradores
beneficiadas, num município que tem o terceiro menor Produto Interno Bruto
(PIB) do Rio.
- O que dificulta mais é que
meu marido, que trabalhava na roça, sofreu um acidente de moto. Ele está em
casa. E a família depende do meu dinheiro. É pouquinho, mas agradeço a Deus -
diz Zilma, que mora no Morro do Pinhão, perto do Centro de São José de Ubá.
Um alto percentual de
moradores recebendo o Bolsa Família, no entanto, não é exclusividade do
município. Outros três tem mais de 40% da população beneficiada: Varre-Sai
(41,64%), no Noroeste Fluminense; Silva Jardim (40,67%), nas Baixadas
Litorâneas; e São Francisco de Itabapoana (40,24%), no Norte Fluminense. Todos
têm índices próximos de estados como Pernambuco e Sergipe, no Nordeste, e do
Pará, no Norte.
São pessoas como Cenilda
Guilherme dos Santos, que recebe R$ 170 do programa, fundamental para as
despesas da casa, em Barra de Itabapoana, no extremo norte de São Francisco de
Itabapoana.
- O problema é que a inflação
tem nos prejudicado muito na hora de ir ao mercado. Está tudo caro, e o que
recebo dá para cada vez menos - diz Cenilda.
Em contraposição, os
municípios com menos moradores cadastrados no Bolsa Família, proporcionalmente,
são Resende (7,7% dos habitantes), Nova Friburgo (8,71%) e Niterói (9,82%).
HISTÓRIAS DA MISÉRIA
"Sofro desde o
berço". A afirmação não é um exagero de Carla Nascimento. Com dias de
vida, sua mãe a abandonou num curral de boi, na zona rural de São Sebastião do
Alto, na Região Serrana. O primeiro bebê ela teve aos 17 anos e, hoje, aos 29,
está grávida do sexto filho. Com problemas de alcoolismo, contudo, teve quatro
deles retirados de seus cuidados pelo conselho tutelar. Agora, Carla vive com
um único filho, o pequeno Luiz Otávio, de 3 anos, num recanto isolado de
Itaocara, no Noroeste Fluminense, conhecido como Ponte da Jararaca. E não
segura as lágrimas toda vez que lembra de seu passado.
Sem renda alguma, nem Bolsa
Família, Carla só não passa fome porque tem a ajuda do pai, com quem vive, e da
tia que a criou depois de ter sido abandonada no curral. O que não significa
que ela encontre facilidades na vida. Roupa para o bebê que está prestes a
nascer, ela não tem uma única peça. Dorme num sofá, enquanto seu pai descansa
do trabalho na roça no chão. E, sim, embora viva numa região de propriedades
rurais, com plantações ou criações de gado, às vezes a comida é escassa.
- Só às vezes dá para comer
carne. A comida tem que ser angu e feijão - relata ela.
O último trabalho de Carla foi
alguns meses atrás, como caseira num sítio em Teresópolis, na Serra. Mas de
três meses trabalhados, ela só recebeu o salário do primeiro. E quando só tinha
canjiquinha e taioba para comer, resolveu abandonar o serviço.
- Eu trabalhava e passava
fome. Meu filho chorava o tempo inteiro, e acordava de noite com fome. Não
resisti àquilo. Vim embora - diz ela. - Quando minha filha Dáfini nascer, vou
ver o que Deus vai agir na nossa vida. Meu desejo é ter uma casa para mim e
meus filhos, todos juntos.
PALAVRA DE ESPECIALISTA
Chefe de Economia Empresarial
do Sistema Firjan, Tatiana Sanchez apontou as característas dos municípios que
apresentaram os piores resultado no último Índice Firjan de Desenvolvimento
Municipal (IFDM), divulgado em 2014, referente a indicadores sociais de 2011.
Segundo ela, os municípios com menor desenvolvimento têm seus principais
problemas no mercado de trabalho e na saúde.
- No mercado de trabalho, não
só é baixa a geração de vagas formais de emprego, bem como é baixo o nível salarial.
Na saúde, os principais problemas estão na cobertura de consultas pré-natal e
no número de internações que poderiam ter sido evitadas caso a atenção básica
de saúde tivesse sido efetiva - diz ela.
Em Japeri, na Região
Metropolitana, com o pior resultado no levantamento, a condição de
desenvolvimento, aponta ela, é similar à de municípios do interior do Norte e
do Nordeste.
- Além dos problemas comuns
aos municípios de pior classificação no Rio, Japeri divide ainda com os
municípios de menor classificação no Brasil questões como a baixa inserção da
população em idade ativa no mercado formal de trabalho.
Já Santa Maria Madalena, na
Serra, com a penúltima posição, tem baixa capacidade de criação de vagas
formais. O que afeta também São Sebastião do Alto, na 90ª posição, e Varre-Sai,
na 89ª.
Em outro índice que analisa os
indicadores socieconômicos dos municípios, o de Desenvolvimento Humano, do
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Sumidouro, na Região
Serrana, aparece no último lugar.
O GLOBO

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